EMEDIO
terça-feira, 31 de agosto de 2010
quarta-feira, 25 de agosto de 2010
terça-feira, 24 de agosto de 2010
Machado de Assis
Joaquim Maria Machado de Assis nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 21 de junho de 1839 e faleceu também no Rio de Janeiro, em 29 de setembro de 1908. Era mestiço, filho de um mulato carioca, pintor de paredes, e de uma imigrante açoriana. Machado de Assis era de origem humilde, freqüentou apenas a escola primária, pois precisou trabalhar desde a infância, perdeu a mãe muito cedo, pouco se sabe sobre sua infância e início da juventude. Empenhou-se em aprender, mesmo sem ter acesso a cursos regulares, aprendeu francês, inglês e alemão, sempre como autodidata. Trabalhou como tipógrafo na Imprensa Oficial, estreou na literatura com 15 anos, em 1855, com a publicação do poema “Ela”, na revista Marmota Fluminense. Em 1869, casou-se com Carolina Xavier de Novais, uma senhora portuguesa de boa cultura com quem viveu até a morte. Trabalhou como cronista, contista, poeta e crítico literário, assim foi reconhecido como intelectual. Como funcionário público alcançou alta posição e desfrutou de consideração social. Amparado por uma carreira burocrática o escritor pôde se entregar totalmente à vocação de ficcionista. Sua obra foi variada e extensa, dela se destaca o Machado Assis contista e romancista. Essas podem ser divididas em dois grupos: Ao primeiro grupo pertencem Ressurreição, Helena, A mão e a luva, Iaiá Garcia, essas obras apresentam características do romance do século XIX. Sua obra Memórias Póstumas de Brás Cubas marcou o início do realismo no Brasil. Essa obra marcou o início do segundo grupo de produção. É a partir dessa obra que ele revela seu grande talento para a análise psicológica de personagens. Machado de Assis tornou-se o contista mais excepcional da língua portuguesa e um dos poucos romancistas brasileiros de interesse universal. As suas mais representativas obras foram traduzidas para diversas línguas, nesse grupo incluem-se Quincas Borba, Dom Casmurro, Esaú e Jacó e Memorial de Aires. Machado de Assis foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, foi eleito presidente da instituição, cargo que ocupou até sua morte.
É fundador da cadeira nº 23, seu grande amigo, José de Alencar, foi escolhido para ser seu patrono.
A Academia Brasileira de Letras também é chamada de Casa de Machado de Assis, devido à sua importância.
Suas principais obras são:
Comédia Desencantos, 1861.
Tu, só tu, puro amor, 1881.
Poesia Crisálidas, 1864.
Falenas, 1870.
Americanas, 1875.
Poesias completas, 1901.
Romance Ressurreição, 1872.
A mão e a luva, 1874.
Helena, 1876.
Iaiá Garcia, 1878.
Memórias Póstumas de Brás Cubas, 1881.
Quincas Borba, 1891.
Dom Casmurro, 1899.
Esaú Jacó, 1904.
Memorial de Aires, 1908.
Conto Contos Fluminenses,1870.
Histórias da meia-noite, 1873.
Papéis avulsos, 1882.
Histórias sem data, 1884.
Várias histórias, 1896.
Páginas recolhidas, 1899.
Relíquias de casa velha, 1906.
Teatro Queda que as mulheres têm para os tolos, 1861
Desencantos, 1861
Hoje avental, amanhã luva, 1861.
O caminho da porta, 1862.
O protocolo, 1862.
Quase ministro, 1863.
Os deuses de casaca, 1865.
Tu, só tu, puro amor, 1881.
Algumas obras póstumas Crítica, 1910.
Teatro coligido, 1910.
Outras relíquias, 1921.
Correspondência, 1932.
A semana, 1914/1937.
Páginas escolhidas, 1921.
Novas relíquias, 1932.
Crônicas, 1937.
Contos Fluminenses - 2º. volume, 1937.
Crítica literária, 1937.
Crítica teatral, 1937.
Histórias românticas, 1937.
Páginas esquecidas, 1939.
Casa velha, 1944.
Diálogos e reflexões de um relojoeiro, 1956.
Crônicas de Lélio, 1958.
Conto de escola, 2002.
Antologias Obras completas (31 volumes), 1936.
Contos e crônicas, 1958.
Contos esparsos, 1966.
Contos: Uma Antologia (02 volumes), 1998
É fundador da cadeira nº 23, seu grande amigo, José de Alencar, foi escolhido para ser seu patrono.
A Academia Brasileira de Letras também é chamada de Casa de Machado de Assis, devido à sua importância.
Suas principais obras são:
Comédia Desencantos, 1861.
Tu, só tu, puro amor, 1881.
Poesia Crisálidas, 1864.
Falenas, 1870.
Americanas, 1875.
Poesias completas, 1901.
Romance Ressurreição, 1872.
A mão e a luva, 1874.
Helena, 1876.
Iaiá Garcia, 1878.
Memórias Póstumas de Brás Cubas, 1881.
Quincas Borba, 1891.
Dom Casmurro, 1899.
Esaú Jacó, 1904.
Memorial de Aires, 1908.
Conto Contos Fluminenses,1870.
Histórias da meia-noite, 1873.
Papéis avulsos, 1882.
Histórias sem data, 1884.
Várias histórias, 1896.
Páginas recolhidas, 1899.
Relíquias de casa velha, 1906.
Teatro Queda que as mulheres têm para os tolos, 1861
Desencantos, 1861
Hoje avental, amanhã luva, 1861.
O caminho da porta, 1862.
O protocolo, 1862.
Quase ministro, 1863.
Os deuses de casaca, 1865.
Tu, só tu, puro amor, 1881.
Algumas obras póstumas Crítica, 1910.
Teatro coligido, 1910.
Outras relíquias, 1921.
Correspondência, 1932.
A semana, 1914/1937.
Páginas escolhidas, 1921.
Novas relíquias, 1932.
Crônicas, 1937.
Contos Fluminenses - 2º. volume, 1937.
Crítica literária, 1937.
Crítica teatral, 1937.
Histórias românticas, 1937.
Páginas esquecidas, 1939.
Casa velha, 1944.
Diálogos e reflexões de um relojoeiro, 1956.
Crônicas de Lélio, 1958.
Conto de escola, 2002.
Antologias Obras completas (31 volumes), 1936.
Contos e crônicas, 1958.
Contos esparsos, 1966.
Contos: Uma Antologia (02 volumes), 1998
Quincas Borba
Rubião pretendia ver sua irmã, Maria da Piedade, casada com Quincas Borba. No entanto isso não aconteceu e o laço que os uniu foi o da amizade. Quincas possuía alguns parentes, o último deles foi um tio que lhe deixou uma grande herança. Mas ele tinha uma doença que logo o levaria. Rubião tornou-se seu melhor amigo e foi viver com ele, o médio fingia-lhe uma melhora apenas para não lhe provocar grande dor com a morte próxima. Rubião teve ao longo desse tempo que dividir seu amigo com o cachorro de tal, também chamado Quincas Borba. Quincas resolveu ir à corte, ignorando seu estado físico, Rubião ficou encarregado de cuidar do cão. Antes de voltar Quincas Borba morreu, Rubião entristeceu-se com a notícia, mas não parava de pensar no quanto receberia de herança. Com a morte do amigo presenteou uma senhora com o cachorro, mas quando o testamento foi lido Quincas Borba havia lhe feito herdeiro universal com a condição de adotar o cachorro pra si.
Rubião conseguiu o cachorro de volta. E sendo rico mudou-se pra corte, e foi na viagem de trem que conheceu Cristiano de Almeida e Palha e sua mulher, a belíssima Sofia. Logo se tornaram grandes amigos. Rubião logo de ínicio ficou encantado com os olhos de Sofia, encantamento que só aumentou ao longo dos dias, até se tornar uma grande paixão. As trocas de olhares e supostas atenções dirigidas por Sofia à Rubião o tornava mais apaixonado e o fazia crer que era correspondido. Durante um almoço com dois amigos, Freitas um homem muito agradável, humilde e admirável e Carlos Maria, jovem, orgulhoso e esnobe, recebeu uma cestinha com morangos e um bilhete escrito por Sofia lhe convidando para um jantar. Tal mimo o animou mais ainda quanto à paixão que sentia. No horário marcado foi para Santa Teresa, localidade da casa de Palha. Haviam ali outros convidados apenas uma das senhoras era solteira, na verdade uma solteirona. D. Tonica, que obviamente encheu-se de interesse por Rubião, mas a troca de olhares entre ele e Sofia, que muitas vezes fixavam, lhe despertou a desesperança e a raiva, afinal Sofia que já era casada possuía outros homens em vez de lhe deixar. Sofia convidou ambos para um passeio ao luar no jardim, mas apenas Rubião aceitou. E foi ali no jardim que se declarou para Sofia, a pobre não teve reação, até que foram interferidos pelo major Siqueira. Sofia conseguiu se recompor e iludir o homem acerca do que acontecera, no entanto Rubião se perdeu em embaraço. Assim a noite seguiu ao fim. A sós Sofia e Palha conversavam sobre o jantar e Palha ouviu os fatos do jardim, Sofia desejava um corte violento na amizade, mas Palha preferiu ignorar tal acontecimento. Afinal, os homens se maravilharem com Sofia não era novidade, era vaidade de Palha mostrar a bela mulher que tinha, por isso dava-lhe vestidos decotados que lhe deixavam o colo e os braços nus. A verdade era que Palha tinha negócios com Rubião, não só lhe devia dinheiro como também eram sócios em um comércio de importações. Chegou da “roça” uma prima de Sofia, Maria Benedita e sua mãe. Sofia insistia que era necessário que a prima aprendesse francês e a tocar piano, mas as saudades que sentiam do campo sempre lhes levavam embora. Porém desda vez Maria Benedita ficou e sempre que as saudades da mãe e do campo lhe viam ela e Sofia iam para lá.
Em certo baile por quinze minutos Sofia e Carlos Maria valsaram e foi durante essa dança que ele se declarou. Essa declaração não foi revelada a Palha. E ainda despertou em Rubião uma grande onda de cíume e em Maria Benedia um desejo de voltar para o campo. Por esses tempos Sofia, a prima e mais algumas senhoras haviam formado a comisão de Alagoas, tal grupo fez D. Fernanda e Maria Benedita criarem laços de amizades. D. Fernanda era prima de Carlos Maria e pretendia casar-lhe com uma amiga do sul, mas sua amizade com Maria Benedita lhe mudou de idéia e assim o casamento entre os dois foi marcado. O ciúme de Rubião diminuiu suas idas à casa de Palha. Em uma tarde chegou um negro em sua casa e lhe entregou uma carta de Sofia, leu-a, quando o negro saía caiu uma carta que Rubião só veio ver depois que o moleque já tinha ido embora, a carta era de Sofia para Carlos Maria. Rubião ficou extremamente enciumado e foi nessas condições que alguns dias depois foi ter com Sofia, lhe entregou a carta acusando-a e saiu antes da senhora ter a chance de se explicar. A carta ainda fechada não passava de uma declaração.
Chegou então o aniversário de Sofia, Palha lhe ofereceu um baile, em certo momento Sofia ficou a sós com Rubião e esclareceu o conteúdo da carta, entre as lágrimas pela falsa acusação lhe disse que ele estava tremendamente enganado, noticiou a ele o casamento de Carlos Maria com Maria Benedita. Rubião foi tomado por uma felicidade tremenda e parabenizou a noiva com muito prazer. Os noivos casaram e foram para a Europa. Por esses tempos Palha havia findado os seus negócios com Rubião. Por esses tempos também Rubião havia ganhado fama na corte e era cercado por muitos amigos que praticamente viviam em sua casa como discípulos de sua filosofia. E nesse momento iniciou-se a loucura de Rubião.
O primeiro ato de loucura foi quando chamou um barbeiro para que lhe cortasse a barba como a de Napoleão III, depois buscou por Sofia e se declarou a ela como Napoleão fez à sua amante. Com o tempo as crises de loucura aumentavam, e o dinheiro ia se findando. Palha e Sofia estreitaram suas relações com ele. Nas visitas que faziam sempre se asustavam com as crises que às vezes aconteciam. D. Fernanda dizia ver nos olhos dele a recuperação, se fosse tratado. Assim Palha lhe comprou uma casa menor onde iniciou um tratamento, os “discípulos” só assim findaram suas visitas. A esse ponto voltou da Europa Maria Benetida que veio ter sua filha na corte.
Rubião foi internado em uma clínica para ser tradado, já se tornara chacota na rua. Palha e Sofia contribuiam com tais atos, financeiramente Rubião havia perdido muito. O médico ao longo do tratamento disse que rápido o homem estaria curado, mas antes disso ele desapareceu. Palha havia lhe dado cem mil contos de réis para se ver livre do homem. Rubião e o cão Quincas Borba voltaram pra Minas, não houve cura. Lá reconheceu toda sua antiga vida, mas sem ter onde ficar dormiu na porta da igreja debaixo de uma tempestade.
Ao amanhecer uma comadre o reconheceu e o acolheu. No entanto ele teve nova crise e toda a cidade veio testemunhar a loucura do homem. Louco e vítima de uma febre, faleceu. Quincas Borba morreu três dias depois.
Fonte: Rebeca Cabral
Rubião conseguiu o cachorro de volta. E sendo rico mudou-se pra corte, e foi na viagem de trem que conheceu Cristiano de Almeida e Palha e sua mulher, a belíssima Sofia. Logo se tornaram grandes amigos. Rubião logo de ínicio ficou encantado com os olhos de Sofia, encantamento que só aumentou ao longo dos dias, até se tornar uma grande paixão. As trocas de olhares e supostas atenções dirigidas por Sofia à Rubião o tornava mais apaixonado e o fazia crer que era correspondido. Durante um almoço com dois amigos, Freitas um homem muito agradável, humilde e admirável e Carlos Maria, jovem, orgulhoso e esnobe, recebeu uma cestinha com morangos e um bilhete escrito por Sofia lhe convidando para um jantar. Tal mimo o animou mais ainda quanto à paixão que sentia. No horário marcado foi para Santa Teresa, localidade da casa de Palha. Haviam ali outros convidados apenas uma das senhoras era solteira, na verdade uma solteirona. D. Tonica, que obviamente encheu-se de interesse por Rubião, mas a troca de olhares entre ele e Sofia, que muitas vezes fixavam, lhe despertou a desesperança e a raiva, afinal Sofia que já era casada possuía outros homens em vez de lhe deixar. Sofia convidou ambos para um passeio ao luar no jardim, mas apenas Rubião aceitou. E foi ali no jardim que se declarou para Sofia, a pobre não teve reação, até que foram interferidos pelo major Siqueira. Sofia conseguiu se recompor e iludir o homem acerca do que acontecera, no entanto Rubião se perdeu em embaraço. Assim a noite seguiu ao fim. A sós Sofia e Palha conversavam sobre o jantar e Palha ouviu os fatos do jardim, Sofia desejava um corte violento na amizade, mas Palha preferiu ignorar tal acontecimento. Afinal, os homens se maravilharem com Sofia não era novidade, era vaidade de Palha mostrar a bela mulher que tinha, por isso dava-lhe vestidos decotados que lhe deixavam o colo e os braços nus. A verdade era que Palha tinha negócios com Rubião, não só lhe devia dinheiro como também eram sócios em um comércio de importações. Chegou da “roça” uma prima de Sofia, Maria Benedita e sua mãe. Sofia insistia que era necessário que a prima aprendesse francês e a tocar piano, mas as saudades que sentiam do campo sempre lhes levavam embora. Porém desda vez Maria Benedita ficou e sempre que as saudades da mãe e do campo lhe viam ela e Sofia iam para lá.
Em certo baile por quinze minutos Sofia e Carlos Maria valsaram e foi durante essa dança que ele se declarou. Essa declaração não foi revelada a Palha. E ainda despertou em Rubião uma grande onda de cíume e em Maria Benedia um desejo de voltar para o campo. Por esses tempos Sofia, a prima e mais algumas senhoras haviam formado a comisão de Alagoas, tal grupo fez D. Fernanda e Maria Benedita criarem laços de amizades. D. Fernanda era prima de Carlos Maria e pretendia casar-lhe com uma amiga do sul, mas sua amizade com Maria Benedita lhe mudou de idéia e assim o casamento entre os dois foi marcado. O ciúme de Rubião diminuiu suas idas à casa de Palha. Em uma tarde chegou um negro em sua casa e lhe entregou uma carta de Sofia, leu-a, quando o negro saía caiu uma carta que Rubião só veio ver depois que o moleque já tinha ido embora, a carta era de Sofia para Carlos Maria. Rubião ficou extremamente enciumado e foi nessas condições que alguns dias depois foi ter com Sofia, lhe entregou a carta acusando-a e saiu antes da senhora ter a chance de se explicar. A carta ainda fechada não passava de uma declaração.
Chegou então o aniversário de Sofia, Palha lhe ofereceu um baile, em certo momento Sofia ficou a sós com Rubião e esclareceu o conteúdo da carta, entre as lágrimas pela falsa acusação lhe disse que ele estava tremendamente enganado, noticiou a ele o casamento de Carlos Maria com Maria Benedita. Rubião foi tomado por uma felicidade tremenda e parabenizou a noiva com muito prazer. Os noivos casaram e foram para a Europa. Por esses tempos Palha havia findado os seus negócios com Rubião. Por esses tempos também Rubião havia ganhado fama na corte e era cercado por muitos amigos que praticamente viviam em sua casa como discípulos de sua filosofia. E nesse momento iniciou-se a loucura de Rubião.
O primeiro ato de loucura foi quando chamou um barbeiro para que lhe cortasse a barba como a de Napoleão III, depois buscou por Sofia e se declarou a ela como Napoleão fez à sua amante. Com o tempo as crises de loucura aumentavam, e o dinheiro ia se findando. Palha e Sofia estreitaram suas relações com ele. Nas visitas que faziam sempre se asustavam com as crises que às vezes aconteciam. D. Fernanda dizia ver nos olhos dele a recuperação, se fosse tratado. Assim Palha lhe comprou uma casa menor onde iniciou um tratamento, os “discípulos” só assim findaram suas visitas. A esse ponto voltou da Europa Maria Benetida que veio ter sua filha na corte.
Rubião foi internado em uma clínica para ser tradado, já se tornara chacota na rua. Palha e Sofia contribuiam com tais atos, financeiramente Rubião havia perdido muito. O médico ao longo do tratamento disse que rápido o homem estaria curado, mas antes disso ele desapareceu. Palha havia lhe dado cem mil contos de réis para se ver livre do homem. Rubião e o cão Quincas Borba voltaram pra Minas, não houve cura. Lá reconheceu toda sua antiga vida, mas sem ter onde ficar dormiu na porta da igreja debaixo de uma tempestade.
Ao amanhecer uma comadre o reconheceu e o acolheu. No entanto ele teve nova crise e toda a cidade veio testemunhar a loucura do homem. Louco e vítima de uma febre, faleceu. Quincas Borba morreu três dias depois.
Fonte: Rebeca Cabral
quarta-feira, 18 de agosto de 2010
domingo, 15 de agosto de 2010
sexta-feira, 13 de agosto de 2010
quarta-feira, 11 de agosto de 2010
Em modo extremo - J R GUZZO
Em modo extremo
"Lula não corrige nenhum dos erros que comete, pois acabou convencido de que não erra nunca; além disso, é estimulado o tempo todo a continuar errando"
O brasileiro comum, do tipo que não pode nomear parentes nem agregados para "cargos em comissão" no serviço público, raramente tem a oportunidade de ser bajulado. Em compensação, passa a vida pagando pelos estragos causados pela bajulação praticada em escala maciça, e todos os dias, nas esferas mais altas do governo – a começar pela esfera mais alta de todas. Não existe uma única alma, ali, capaz de admitir que possa haver algum erro, mesmo de pequeno porte, em qualquer coisa que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva diga, faça ou pense. O resultado é que Lula não corrige nenhum dos erros que comete, pois acabou convencido de que não erra nunca; além disso, é estimulado o tempo todo a continuar errando. A conta, como de costume, é paga pelo público em geral. Como poderia ser diferente, quando as pessoas com quem Lula fala e convive diariamente estão dispostas a tudo para deixar claro, claríssimo, que ele tem sempre razão, seja lá no que for?
O presidente, por sua própria iniciativa, já se acha a obra mais bem-acabada que a história do Brasil conseguiu produzir até hoje. Fica ainda mais convencido disso, naturalmente, quando é chamado por seus ministros e principais mandarins de "Nosso Mestre", "Nosso Guia" ou "Nossa Luz", e passa o dia inteiro cercado de gente cuja grande preocupação na vida é dar um jeito de dizer só o que ele quer ouvir. Ou então não dizer, de jeito nenhum, o que ele não quer ouvir. Talvez ninguém tenha resumido melhor essa questão do que a ex-ministra Dilma Rousseff, pré-candidata oficial nas próximas eleições presidenciais. Questionada recentemente sobre o que achava da situação dos presos políticos em Cuba, que Lula havia acabado de comparar com "bandidos" de São Paulo, Dilma mostrou que só pensa naquilo – como concordar com o chefe. "Vocês não vão tirar de mim nenhuma crítica ao presidente Lula", respondeu aos jornalistas. "Nem que a vaca tussa." A candidata, em suma, não disse nada sobre a liberdade em Cuba. Ao mesmo tempo, disse tudo sobre o padrão de conduta hoje em vigor no governo.
Até algum tempo atrás, com seus índices de popularidade que não param de subir, Lula parecia satisfeito em ouvir de seus auxiliares, concordando 100% com eles, que é o maior presidente que o país jamais teve. Hoje já começa a dar a impressão de que está se sentindo grande demais para caber nas fronteiras do Brasil. "Eu gostaria que todos os governantes do mundo agissem como eu ajo", disse ele numa de suas recentes viagens ao exterior. Ultimamente deu para achar que o Brasil tem condições de resolver o problema do Oriente Médio, que está aí pelo menos desde 1948, ou de convencer os aiatolás do Irã a utilizar de maneira construtiva a bomba atômica que, segundo se suspeita, estão fabricando. Imagina que a melhor maneira de amansar ditadores é ficar amigo deles, e vive ouvindo de seus colaboradores que é um grande nome para chefiar as Nações Unidas depois que acabar seu mandato presidencial; aparentemente, até agora, vem achando muito natural essa possibilidade.
É óbvio que não se pode esperar nada muito diferente disso; a Presidência da República, aqui ou em qualquer lugar do mundo, é um ecossistema voltado para a sobrevivência dos mais aptos a bajular, obedecer e dissimular o que pensam. Tome-se, por exemplo, o caso da Casa Branca, onde a palavra "transparência" tem um valor quase religioso, pelo menos no discurso oficial da política americana. Ninguém que tenha um gabinete ali dentro sairia de casa de manhã, rumo ao trabalho, prometendo a si próprio: "Hoje eu vou dizer umas boas verdades a esse Obama". Se disser, serão as suas últimas palavras no emprego – o índice de mortalidade na carreira é altíssimo para pessoas que querem, ao mesmo tempo, servir a presidentes da República e manter intacta a sua sinceridade. Na verdade, a história se repete em qualquer lugar, público ou privado, onde alguém manda. O máximo que se consegue nesses ambientes, em matéria de crítica, são comentários do tipo: "O grande defeito do chefe é que ele trabalha demais". Ou é perfeccionista demais, sincero demais, confia demais nas pessoas, e por aí afora.
O problema, nos casos de bajulação em modo extremo como a que existe hoje em torno do Palácio do Planalto, é que o governo já começa a achar que a ausência de aplauso é uma anomalia; algo tão incompreensível que só pode ser má-fé. "Eu inaugurei 2 t000 casas e não vi uma nota no jornal", espantou-se o presidente tempos atrás. É nisso que veio dar essa história de "Nosso Mestre"...
"Lula não corrige nenhum dos erros que comete, pois acabou convencido de que não erra nunca; além disso, é estimulado o tempo todo a continuar errando"
O brasileiro comum, do tipo que não pode nomear parentes nem agregados para "cargos em comissão" no serviço público, raramente tem a oportunidade de ser bajulado. Em compensação, passa a vida pagando pelos estragos causados pela bajulação praticada em escala maciça, e todos os dias, nas esferas mais altas do governo – a começar pela esfera mais alta de todas. Não existe uma única alma, ali, capaz de admitir que possa haver algum erro, mesmo de pequeno porte, em qualquer coisa que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva diga, faça ou pense. O resultado é que Lula não corrige nenhum dos erros que comete, pois acabou convencido de que não erra nunca; além disso, é estimulado o tempo todo a continuar errando. A conta, como de costume, é paga pelo público em geral. Como poderia ser diferente, quando as pessoas com quem Lula fala e convive diariamente estão dispostas a tudo para deixar claro, claríssimo, que ele tem sempre razão, seja lá no que for?
O presidente, por sua própria iniciativa, já se acha a obra mais bem-acabada que a história do Brasil conseguiu produzir até hoje. Fica ainda mais convencido disso, naturalmente, quando é chamado por seus ministros e principais mandarins de "Nosso Mestre", "Nosso Guia" ou "Nossa Luz", e passa o dia inteiro cercado de gente cuja grande preocupação na vida é dar um jeito de dizer só o que ele quer ouvir. Ou então não dizer, de jeito nenhum, o que ele não quer ouvir. Talvez ninguém tenha resumido melhor essa questão do que a ex-ministra Dilma Rousseff, pré-candidata oficial nas próximas eleições presidenciais. Questionada recentemente sobre o que achava da situação dos presos políticos em Cuba, que Lula havia acabado de comparar com "bandidos" de São Paulo, Dilma mostrou que só pensa naquilo – como concordar com o chefe. "Vocês não vão tirar de mim nenhuma crítica ao presidente Lula", respondeu aos jornalistas. "Nem que a vaca tussa." A candidata, em suma, não disse nada sobre a liberdade em Cuba. Ao mesmo tempo, disse tudo sobre o padrão de conduta hoje em vigor no governo.
Até algum tempo atrás, com seus índices de popularidade que não param de subir, Lula parecia satisfeito em ouvir de seus auxiliares, concordando 100% com eles, que é o maior presidente que o país jamais teve. Hoje já começa a dar a impressão de que está se sentindo grande demais para caber nas fronteiras do Brasil. "Eu gostaria que todos os governantes do mundo agissem como eu ajo", disse ele numa de suas recentes viagens ao exterior. Ultimamente deu para achar que o Brasil tem condições de resolver o problema do Oriente Médio, que está aí pelo menos desde 1948, ou de convencer os aiatolás do Irã a utilizar de maneira construtiva a bomba atômica que, segundo se suspeita, estão fabricando. Imagina que a melhor maneira de amansar ditadores é ficar amigo deles, e vive ouvindo de seus colaboradores que é um grande nome para chefiar as Nações Unidas depois que acabar seu mandato presidencial; aparentemente, até agora, vem achando muito natural essa possibilidade.
É óbvio que não se pode esperar nada muito diferente disso; a Presidência da República, aqui ou em qualquer lugar do mundo, é um ecossistema voltado para a sobrevivência dos mais aptos a bajular, obedecer e dissimular o que pensam. Tome-se, por exemplo, o caso da Casa Branca, onde a palavra "transparência" tem um valor quase religioso, pelo menos no discurso oficial da política americana. Ninguém que tenha um gabinete ali dentro sairia de casa de manhã, rumo ao trabalho, prometendo a si próprio: "Hoje eu vou dizer umas boas verdades a esse Obama". Se disser, serão as suas últimas palavras no emprego – o índice de mortalidade na carreira é altíssimo para pessoas que querem, ao mesmo tempo, servir a presidentes da República e manter intacta a sua sinceridade. Na verdade, a história se repete em qualquer lugar, público ou privado, onde alguém manda. O máximo que se consegue nesses ambientes, em matéria de crítica, são comentários do tipo: "O grande defeito do chefe é que ele trabalha demais". Ou é perfeccionista demais, sincero demais, confia demais nas pessoas, e por aí afora.
O problema, nos casos de bajulação em modo extremo como a que existe hoje em torno do Palácio do Planalto, é que o governo já começa a achar que a ausência de aplauso é uma anomalia; algo tão incompreensível que só pode ser má-fé. "Eu inaugurei 2 t000 casas e não vi uma nota no jornal", espantou-se o presidente tempos atrás. É nisso que veio dar essa história de "Nosso Mestre"...
Pobres e Ricos - J R GUZZO
Pobres e ricos
"Melhor seria se houvesse menos gente empenhada em defender os pobres. Todos juram que estão a seu favor, mas se estivessem mesmo deveria haver no Brasil númeromuito menor de pobres. Já os ricos, que não têm defensor, nunca estiveram tão bem"
Promete ser uma arma muito utilizada pelo governo, ao longo da campanha eleitoral, falar sobre o perigo que os pobres deste país passariam a correr se a candidata Dilma Rousseff não for eleita para a Presidência da República. Entre as instruções a respeito do que ela deve dizer em seus discursos, ora em avaliação pelas equipes de propaganda da candidatura oficial, parece haver bastante entusiasmo com a tentativa de colar nos adversários uma intenção secreta: governar contra os pobres e a favor dos ricos. A ideia geral, aí, é deixar os outros candidatos, sobretudo o principal deles, numa situação sem saída. Se falarem em mexer no Bolsa Família, nos aumentos reais do salário mínimo e em outros benefícios, estarão mostrando sua verdadeira cara; se prometerem não mexer em nada, estarão mentindo.
A dificuldade desse tipo de plano, como de tantos outros, é combinar com o adversário para que ele cumpra a sua parte. O ex-governador José Serra, a ex-ministra Marina Silva e quem mais houver em campanha não vão anunciar, por exemplo, que acabarão com os pagamentos do Bolsa Família se forem eleitos. Por que diabo fariam uma coisa dessas? Ao contrário, vão assumir o compromisso de manter tudo como está; se quiserem caprichar, podem até dizer que o governo está pagando muito pouco e prometerem um belo aumento a partir de 2011. Nenhum candidato vai, da mesma forma, sair por aí anunciando planos de congelar os salários, cortar o crédito ou eliminar os programas de casa própria. Resta à ex-ministra, nesse caso, a alternativa de sustentar que os opositores dizem uma coisa, mas querem, na realidade, fazer exatamente o contrário. Mas aí é entrar em território incerto; acusações de mentira sempre têm duas mãos, e, numa disputa eleitoral que ameaça bater todos os recordes em matéria de tapeação, chamar o outro lado de mentiroso pode acabar em lucro zero.
Quanto aos pobres, em si, provavelmente seria melhor se houvesse menos gente empenhada em defendê-los. Todos juram que estão a seu favor, mas se estivessem mesmo já deveria haver no Brasil, a esta altura do século XXI, um número muito menor de pobres. Já os ricos, que não têm nenhum defensor, nunca estiveram tão bem quanto agora. Não há sinal de que algum deles tenha ficado mais pobre nesses últimos sete anos, salvo os que se meteram, por sua própria conta, em maus negócios – nada que tenha a ver com alguma decisão do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ele mesmo, por sinal, já disse que jamais os ricos e as grandes empresas ganharam tanto dinheiro quanto em seu período na Presidência. Poderia dizer, também, que nunca a quantidade de milionários brasileiros cresceu tanto como hoje. Segundo o último balanço do banco de investimentos Merrill Lynch, que calcula anualmente o número de cidadãos com patrimônio financeiro superior a 1 milhão de dólares pelo mundo afora, o Brasil ganhou 33 000 novos milionários entre 2004 e 2008. Dá, em média, um novo milionário por hora.
Não existe nada de errado com nenhuma dessas coisas, é claro. O problema do Brasil, em matéria de renda, não é a quantidade excessiva de ricos – é que há pobres demais. Mas sem dúvida é curioso, em cima dos números atuais, que a candidata oficial acuse os opositores de pretender governar para os ricos. O que poderiam fazer de tão diferente assim, em relação ao que já vem acontecendo? Produzir dois novos milionários por hora, quem sabe, em vez de apenas um? Naturalmente, nada disso faz sentido, mas é o que acontece quando estratégias de campanha se resumem a ficar procurando, o tempo todo, alguma maneira de falar mal dos outros candidatos. Os fatos reais, no caso desse palavrório sobre pobres e ricos, têm bem pouco interesse para quem acusa. O que importa é jogar uns contra os outros, na esperança de impressionar o lado onde há mais eleitores.
Os pobres do Brasil, sabidamente, não precisam de várias coisas; entre elas estão debates desse tipo, em que a ânsia de machucar o adversário pode fazer ruído no noticiário de campanha, mas não lhes põe um real a mais no bolso. Também não precisam de solidariedade, simpatia ou "políticas de renda". O que melhora de verdade a sua situação, como ficou comprovado no mundo dos fatos, são a multiplicação das oportunidades de emprego e a estabilidade da moeda na qual o seu trabalho é pago. O compromisso que mais lhes interessa no momento, por parte de quem pretende chefiar o próximo governo, é este – crescimento sem inflação. Não é o suficiente, num país que precisa melhorar em quase tudo. Mas é indispensável.
"Melhor seria se houvesse menos gente empenhada em defender os pobres. Todos juram que estão a seu favor, mas se estivessem mesmo deveria haver no Brasil númeromuito menor de pobres. Já os ricos, que não têm defensor, nunca estiveram tão bem"
Promete ser uma arma muito utilizada pelo governo, ao longo da campanha eleitoral, falar sobre o perigo que os pobres deste país passariam a correr se a candidata Dilma Rousseff não for eleita para a Presidência da República. Entre as instruções a respeito do que ela deve dizer em seus discursos, ora em avaliação pelas equipes de propaganda da candidatura oficial, parece haver bastante entusiasmo com a tentativa de colar nos adversários uma intenção secreta: governar contra os pobres e a favor dos ricos. A ideia geral, aí, é deixar os outros candidatos, sobretudo o principal deles, numa situação sem saída. Se falarem em mexer no Bolsa Família, nos aumentos reais do salário mínimo e em outros benefícios, estarão mostrando sua verdadeira cara; se prometerem não mexer em nada, estarão mentindo.
A dificuldade desse tipo de plano, como de tantos outros, é combinar com o adversário para que ele cumpra a sua parte. O ex-governador José Serra, a ex-ministra Marina Silva e quem mais houver em campanha não vão anunciar, por exemplo, que acabarão com os pagamentos do Bolsa Família se forem eleitos. Por que diabo fariam uma coisa dessas? Ao contrário, vão assumir o compromisso de manter tudo como está; se quiserem caprichar, podem até dizer que o governo está pagando muito pouco e prometerem um belo aumento a partir de 2011. Nenhum candidato vai, da mesma forma, sair por aí anunciando planos de congelar os salários, cortar o crédito ou eliminar os programas de casa própria. Resta à ex-ministra, nesse caso, a alternativa de sustentar que os opositores dizem uma coisa, mas querem, na realidade, fazer exatamente o contrário. Mas aí é entrar em território incerto; acusações de mentira sempre têm duas mãos, e, numa disputa eleitoral que ameaça bater todos os recordes em matéria de tapeação, chamar o outro lado de mentiroso pode acabar em lucro zero.
Quanto aos pobres, em si, provavelmente seria melhor se houvesse menos gente empenhada em defendê-los. Todos juram que estão a seu favor, mas se estivessem mesmo já deveria haver no Brasil, a esta altura do século XXI, um número muito menor de pobres. Já os ricos, que não têm nenhum defensor, nunca estiveram tão bem quanto agora. Não há sinal de que algum deles tenha ficado mais pobre nesses últimos sete anos, salvo os que se meteram, por sua própria conta, em maus negócios – nada que tenha a ver com alguma decisão do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ele mesmo, por sinal, já disse que jamais os ricos e as grandes empresas ganharam tanto dinheiro quanto em seu período na Presidência. Poderia dizer, também, que nunca a quantidade de milionários brasileiros cresceu tanto como hoje. Segundo o último balanço do banco de investimentos Merrill Lynch, que calcula anualmente o número de cidadãos com patrimônio financeiro superior a 1 milhão de dólares pelo mundo afora, o Brasil ganhou 33 000 novos milionários entre 2004 e 2008. Dá, em média, um novo milionário por hora.
Não existe nada de errado com nenhuma dessas coisas, é claro. O problema do Brasil, em matéria de renda, não é a quantidade excessiva de ricos – é que há pobres demais. Mas sem dúvida é curioso, em cima dos números atuais, que a candidata oficial acuse os opositores de pretender governar para os ricos. O que poderiam fazer de tão diferente assim, em relação ao que já vem acontecendo? Produzir dois novos milionários por hora, quem sabe, em vez de apenas um? Naturalmente, nada disso faz sentido, mas é o que acontece quando estratégias de campanha se resumem a ficar procurando, o tempo todo, alguma maneira de falar mal dos outros candidatos. Os fatos reais, no caso desse palavrório sobre pobres e ricos, têm bem pouco interesse para quem acusa. O que importa é jogar uns contra os outros, na esperança de impressionar o lado onde há mais eleitores.
Os pobres do Brasil, sabidamente, não precisam de várias coisas; entre elas estão debates desse tipo, em que a ânsia de machucar o adversário pode fazer ruído no noticiário de campanha, mas não lhes põe um real a mais no bolso. Também não precisam de solidariedade, simpatia ou "políticas de renda". O que melhora de verdade a sua situação, como ficou comprovado no mundo dos fatos, são a multiplicação das oportunidades de emprego e a estabilidade da moeda na qual o seu trabalho é pago. O compromisso que mais lhes interessa no momento, por parte de quem pretende chefiar o próximo governo, é este – crescimento sem inflação. Não é o suficiente, num país que precisa melhorar em quase tudo. Mas é indispensável.
Elle, o de sempre

"Quando Collor se cansou de Simon e de Sarney, sobrou para quem? O colunista que vos fala. O que disse é mentira. Mais uma vez: MENTIRA. E uma terceira: MEN-TI-RA"
Pode sentir-se defendido quem tem em sua defesa a dupla formada pelos senadores Renan Calheiros e Fernando Collor de Mello? Há defesas que ferem como ataque. Num primeiro momento funcionam, como funcionou a furibunda blitz desfechada pela dupla contra o senador Pedro Simon, na memorável sessão do Senado da última segunda-feira. A torrente de insultos, insinuações e, da parte de Collor, assustadoras caretas lançadas contra Simon intimidou o senador gaúcho a ponto de, como ele afirmaria mais tarde, ter sentido medo físico. Mas o ônus de carregar pela vida afora, e biografia adentro, o fato de ter contado com tais defensores supera o alívio momentâneo. Os senadores do PT sabem disso e conspicuamente procuram se dissociar dos referidos senhores. Já o presidente do Senado, José Sarney, não bastassem os próprios problemas, é refém de um duo cujo abraço aperta, aprisiona e sufoca como tenaz.
O senador Collor superou-se, naquele dia, na utilização dos velhos recursos em favor do novo papel de injustiçado e sofredor. Buscando inspiração no aparelho digestivo, ordenou a Simon que "engolisse" as próprias palavras e "as digerisse como julgasse conveniente". Chamou o honrado senador de "parlapatão". E enquanto isso armava seu impressionante repertório de expressões fisionômicas e exalações corporais, um conjunto que, querendo sublinhar indignação, acaba por revelar um perturbador descontrole. A respiração era pesada como a do touro ao investir contra o pano vermelho. Repetiam-se os estranhos olhos fixos de outras ocasiões. E a alturas tantas, quando se cansou de Simon e de Sarney, sobrou para quem? Quem? Quem? O colunista que vos fala. Disse ele que "o jornalista chamado Roberto Pompeu de Toledo, que costuma sujar a última página de uma revista local, se não me engano a VEJA", procurou o ministro Ilmar Galvão, encarregado, no Supremo Tribunal Federal, de relatar o processo contra ele, Collor, à época do impeachment, e lhe propôs: "Ministro, declare a culpa do Fernando Collor que nós daremos ao senhor a capa e as entrevistas de páginas amarelas da revista". O ministro, indignado, teria expulsado o interlocutor de seu gabinete.
Deus do céu, quanta pretensão, num pobre jornalista, achar que a efêmera glória do bom tratamento num órgão de imprensa pudesse influenciar o julgamento de um ministro do Supremo! Collor acrescentou que Roberto Pompeu de Toledo não poderia desmentir tal episódio. Pode sim. É mentira. Mais uma vez: MENTIRA. E uma terceira: MEN-TI-RA. A conversa que na época o colunista teve com Ilmar Galvão não teve nunca, jamais e em tempo algum o caráter de (ingênua) negociação do julgamento do ministro contra possível tratamento privilegiado em VEJA. Mesmo se, enlouquecido, o jornalista quisesse fazê-lo, não teria poderes, como não tem agora, nem nunca teve, de dispor da capa ou das páginas amarelas da revista. Seu único e singelo objetivo era informar-se. Claro está que se não houve o principal – uma tentativa de negociação – também não houve o secundário – a expulsão do gabinete. Em todo caso, registre-se que o cinematográfico desfecho pretendido pelo senador é outra mentira, MENTIRA, MEN-TI-RA. A entrevista transcorreu em clima de cordialidade.
Como encerrar este artigo? Primeira hipótese: dizer que sujar páginas por sujar páginas, perito mesmo na especialidade é o ex-presidente – no caso, sujar as páginas da história do Brasil. Sentencioso demais. Se os leitores permitem a falta de modéstia, o colunista gostaria na verdade é de congratular-se consigo mesmo. Ao contrário de Sarney, ele não tem Collor como defensor. Tem como acusador. É uma honra.
•••
Por falar em fisionomia, e para arejar o ambiente com caso oposto ao da carranca oferecida por Collor a Simon, a fisionomia do momento, no Brasil, é a do vice-presidente José Alencar. O fato de ele estar impelido a correr de internação em internação, e de operação em operação, dentro daquilo que se convencionou chamar de "luta" contra o câncer, é o de menos. Como ele próprio alega, não dispõe de alternativa. Muitos também o fariam – e fazem –, especialmente quando têm recursos para pagar o tratamento. O que impressiona é a serenidade com que enfrenta o infortúnio, manifestada no sorriso e no jeito bonachão que estampa nas entradas e saídas do hospital. Seu comportamento, na mais decisiva das horas que espera um mortal, cativou o país. A ele seria dedicada a coluna desta semana, se o homem das Alagoas não se interpusesse no caminho. Fica o registro.
O rei, presidente - Roberto Pompeu de Toledo
27/01/2009
Depois de reproduzir, na postagem “Obama, por Saramago”, texto de José Saramago sobre as propostas políticas de Barack Obama, reproduzo trecho de um artigo, publicado na revista ‘Veja’, de Roberto Pompeu de Toledo, sobre a posse de Obama e, principalmente, sobre a engenharia política da figura do Presidente nos Estados Unidos, de certa forma, sucessora da figura do monarca, sendo personagem central do regime, embora não tenha coroa e seja investido pelo voto e não pelo sangue. É uma ótima definição, principalmente levando em conta os Estados Unidos, do presidencialismo e dos avanços que levaram até ele.
“O presidente dos Estados Unidos é o mais bem-sucedido sucedâneo do rei já concebido pela engenharia política. Eleger um chefe é o passo natural dado pelos primitivos agrupamentos humanos, tão logo se elevam a um grau mínimo de organização. Fazer do chefe um rei, ungindo-o com a mística de um ser especial, por cujas veias corre sangue de cor diferente, e que goza de conexão privilegiada com o divino, é o passo seguinte. Muito mais adiante, quando o cérebro do bicho-homem passa a antepor a razão à superstição e o direito ao arbítrio, a figura do rei entra em obsolescência. Já não se acredita em seres especiais. Mas como, sem um personagem central, investido de suprema autoridade e confirmado pelo sagrado, evitar a anarquia e a dispersão? Os fundadores da nação americana, em resposta a esse temor, inventaram o presidencialismo e, no centro, puseram a figura do presidente. A cerimônia da semana passada em Washington foi a coroação de um rei sem coroa, eleito pelo voto do povo e com mandato fixo – mas de toda forma uma cerimônia de coroação, mais bonita e mais bafejada pela mística do que as cerimônias em muitos dos países que ainda cultuam um rei.”
Depois de reproduzir, na postagem “Obama, por Saramago”, texto de José Saramago sobre as propostas políticas de Barack Obama, reproduzo trecho de um artigo, publicado na revista ‘Veja’, de Roberto Pompeu de Toledo, sobre a posse de Obama e, principalmente, sobre a engenharia política da figura do Presidente nos Estados Unidos, de certa forma, sucessora da figura do monarca, sendo personagem central do regime, embora não tenha coroa e seja investido pelo voto e não pelo sangue. É uma ótima definição, principalmente levando em conta os Estados Unidos, do presidencialismo e dos avanços que levaram até ele.
“O presidente dos Estados Unidos é o mais bem-sucedido sucedâneo do rei já concebido pela engenharia política. Eleger um chefe é o passo natural dado pelos primitivos agrupamentos humanos, tão logo se elevam a um grau mínimo de organização. Fazer do chefe um rei, ungindo-o com a mística de um ser especial, por cujas veias corre sangue de cor diferente, e que goza de conexão privilegiada com o divino, é o passo seguinte. Muito mais adiante, quando o cérebro do bicho-homem passa a antepor a razão à superstição e o direito ao arbítrio, a figura do rei entra em obsolescência. Já não se acredita em seres especiais. Mas como, sem um personagem central, investido de suprema autoridade e confirmado pelo sagrado, evitar a anarquia e a dispersão? Os fundadores da nação americana, em resposta a esse temor, inventaram o presidencialismo e, no centro, puseram a figura do presidente. A cerimônia da semana passada em Washington foi a coroação de um rei sem coroa, eleito pelo voto do povo e com mandato fixo – mas de toda forma uma cerimônia de coroação, mais bonita e mais bafejada pela mística do que as cerimônias em muitos dos países que ainda cultuam um rei.”
Roberto Pompeu de Toledo - Artigos
Leia outros artigos de Roberto Pompeu de Toledo
http://www.nosrevla.com/home/page3c#1
A sombra da Escuridão
Sua excelência, o Traficante
Fuga na noite e perseguição
O medo de ontem e de hoje
http://arquivoetc.blogspot.com/2007/12/roberto-pompeu-de-toledo_15.html
Niemeyer, 100 anos
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Niemeyer, 100 anos
Roberto Pompeu de Toledo - Soberana e Imperturbável
Em depoimento pessoal e uma conclusão sobre as relaçõesentre a China e o tempo
"O novo embaixador da China telefonou..." Algumas semanas atrás este autor... (este autor?; não: desta vez esta página contém um depoimento pessoal, então vai na primeira pessoa). Algumas semanas atrás recebi esse recado. Faz tempo que não tinha tratativas com a China, então que quereria comigo o embaixador? A rigor, tive tratativas com a China apenas uma vez, já lá se vão 21 anos, quando fui incumbido por esta revista de fazer uma reportagem sobre o país, então ensaiando os primeiros passos na direção do capitalismo, ou socialismo capitalista, ou "socialismo de mercado", ou seja lá que nome essa coisa tenha. Passei três semanas na terra então comandada por Deng Xiaoping, e logo ao chegar fui recebido por duas pessoas com quem conviveria largamente naquele período.
A primeira foi o embaixador brasileiro, o inesquecível Italo Zappa, já meu conhecido. Zappa era o desbravador-mor do Itamaraty. Desbravara as relações brasileiras com as antigas colônias portuguesas. Agora estava ajudando a desbravar as relações com a China. "Tudo aqui começa com a política externa", ensinou-me ele. O mastodonte chinês antes escolhe os passos com que se movimentará no meio do mundo, depois aplica as conseqüências disso no dia-a-dia da população. Foi assim que o afastamento da União Soviética, ainda na década de 50, prenunciou a radicalização da Revolução Chinesa. Ou que a retomada das relações com os Estados Unidos, em 1972, executada com tal alarde que incluiu uma visita do presidente Richard Nixon, prenunciou o processo em curso até hoje.
Outra lição de Zappa foi que na China não se deve deixar o cão escapar do portão de casa. Seu cãozinho, um vira-lata chamado "Tu", vivia a espreitar a oportunidade de sair, sempre que o portão era aberto para a entrada de alguém. Às vezes conseguia. E então Zappa saía em correria pela rua, no afã de recapturá-lo antes que algum chinês da vizinhança o fizesse. Nesse caso, o destino provável de Tu seria a panela. Chinês gosta de comer cachorro, como se sabe. Aliás, chinês gosta de comer tudo. Um dito da terra apregoa que chinês come tudo o que tenha quatro patas, exceto mesa.
A outra pessoa que me recebeu em Pequim foi Chen Duqin, destacado pelo Ministério das Relações Exteriores chinês para me servir de intérprete. Eram espantosos o domínio que Chen tinha do português, inclusive do português coloquial do Brasil, e o nível de informação que tinha do país. Seu leve sotaque, muito leve, lembrava o do índio Juruna, então em voga. Para mim, era a prova que faltava, irrefutável e indesmentível, de que os índios americanos vieram da Ásia, caminhando pelas geleiras que então cobriam o Estreito de Bering. Chen tinha servido na embaixada chinesa em Brasília. Uma vez, durante nossa estreita convivência, eu o peguei comentando com outro chinês que, no Brasil, se alguém queria ligar de uma cidade para outra, bastava discar uns numerinhos prévios. Na China não havia DDD. Outra vez, ele comentou que quando vivia no Brasil não tinha tempo para nada. Na China lhe sobrava tempo.
A China daquele ano de 1985, embalada pelas reformas de Deng Xiaoping, apregoava como novidades a possibilidade de as pessoas estabelecerem um negócio próprio, desde que modesto, e a de um camponês cultivar seu próprio pedaço de terra, desde que modesto. Quanto às empresas, todas estatais, elas tinham ganho a possibilidade, primeiro, de tomar suas próprias decisões, dentro de um certo limite; segundo, de vender uma parte da produção no mercado, e não para o Estado, dentro de outro limite; e, terceiro, de se associar em joint ventures (as duas palavrinhas eram tão freqüentes nos lábios dos chineses quanto ni hao, a expressão com que se saúdam) com investidores estrangeiros, respeitados outros tantos limites. Com cuidados de mastodonte, a China ensaiava entrar no baile capitalista.
Ao mesmo tempo, com calculados beliscões no próprio corpo, tentava despertar de seu milenar sono rural. Talvez fosse a esse sono que Chen se referisse ao dizer que na China lhe sobrava tempo. Mas pode haver outra explicação para o tempo que lá se estica, se expande e se avoluma. Ao contemplar certa vez a multidão de chineses que, num parque, como em todas as manhãs, começavam o dia com os movimentos lentos e ritualísticos do tai chi, veio-me a revelação, como um raio: a China tem parte com a eternidade. Ela é a mais antiga civilização ainda em atividade. Viu muitas outras nascer e morrer. Tem uma experiência sem igual no planeta Terra.
Ao responder ao telefonema do novo embaixador chinês, eu me dei conta de que... sim, era o Chen. Meu antigo intérprete e amigo chegou ao topo da carreira. Não sei que China é essa que ele veio representar. O leitor, ao chegar a esta página, já sabe como é a China dos dias que correm, mas eu não li a revista ainda. O que sei é que, comunista ou capitalista, rica ou pobre, a China impõe-se ao mundo, soberana e imperturbável como um deus.
"O novo embaixador da China telefonou..." Algumas semanas atrás este autor... (este autor?; não: desta vez esta página contém um depoimento pessoal, então vai na primeira pessoa). Algumas semanas atrás recebi esse recado. Faz tempo que não tinha tratativas com a China, então que quereria comigo o embaixador? A rigor, tive tratativas com a China apenas uma vez, já lá se vão 21 anos, quando fui incumbido por esta revista de fazer uma reportagem sobre o país, então ensaiando os primeiros passos na direção do capitalismo, ou socialismo capitalista, ou "socialismo de mercado", ou seja lá que nome essa coisa tenha. Passei três semanas na terra então comandada por Deng Xiaoping, e logo ao chegar fui recebido por duas pessoas com quem conviveria largamente naquele período.
A primeira foi o embaixador brasileiro, o inesquecível Italo Zappa, já meu conhecido. Zappa era o desbravador-mor do Itamaraty. Desbravara as relações brasileiras com as antigas colônias portuguesas. Agora estava ajudando a desbravar as relações com a China. "Tudo aqui começa com a política externa", ensinou-me ele. O mastodonte chinês antes escolhe os passos com que se movimentará no meio do mundo, depois aplica as conseqüências disso no dia-a-dia da população. Foi assim que o afastamento da União Soviética, ainda na década de 50, prenunciou a radicalização da Revolução Chinesa. Ou que a retomada das relações com os Estados Unidos, em 1972, executada com tal alarde que incluiu uma visita do presidente Richard Nixon, prenunciou o processo em curso até hoje.
Outra lição de Zappa foi que na China não se deve deixar o cão escapar do portão de casa. Seu cãozinho, um vira-lata chamado "Tu", vivia a espreitar a oportunidade de sair, sempre que o portão era aberto para a entrada de alguém. Às vezes conseguia. E então Zappa saía em correria pela rua, no afã de recapturá-lo antes que algum chinês da vizinhança o fizesse. Nesse caso, o destino provável de Tu seria a panela. Chinês gosta de comer cachorro, como se sabe. Aliás, chinês gosta de comer tudo. Um dito da terra apregoa que chinês come tudo o que tenha quatro patas, exceto mesa.
A outra pessoa que me recebeu em Pequim foi Chen Duqin, destacado pelo Ministério das Relações Exteriores chinês para me servir de intérprete. Eram espantosos o domínio que Chen tinha do português, inclusive do português coloquial do Brasil, e o nível de informação que tinha do país. Seu leve sotaque, muito leve, lembrava o do índio Juruna, então em voga. Para mim, era a prova que faltava, irrefutável e indesmentível, de que os índios americanos vieram da Ásia, caminhando pelas geleiras que então cobriam o Estreito de Bering. Chen tinha servido na embaixada chinesa em Brasília. Uma vez, durante nossa estreita convivência, eu o peguei comentando com outro chinês que, no Brasil, se alguém queria ligar de uma cidade para outra, bastava discar uns numerinhos prévios. Na China não havia DDD. Outra vez, ele comentou que quando vivia no Brasil não tinha tempo para nada. Na China lhe sobrava tempo.
A China daquele ano de 1985, embalada pelas reformas de Deng Xiaoping, apregoava como novidades a possibilidade de as pessoas estabelecerem um negócio próprio, desde que modesto, e a de um camponês cultivar seu próprio pedaço de terra, desde que modesto. Quanto às empresas, todas estatais, elas tinham ganho a possibilidade, primeiro, de tomar suas próprias decisões, dentro de um certo limite; segundo, de vender uma parte da produção no mercado, e não para o Estado, dentro de outro limite; e, terceiro, de se associar em joint ventures (as duas palavrinhas eram tão freqüentes nos lábios dos chineses quanto ni hao, a expressão com que se saúdam) com investidores estrangeiros, respeitados outros tantos limites. Com cuidados de mastodonte, a China ensaiava entrar no baile capitalista.
Ao mesmo tempo, com calculados beliscões no próprio corpo, tentava despertar de seu milenar sono rural. Talvez fosse a esse sono que Chen se referisse ao dizer que na China lhe sobrava tempo. Mas pode haver outra explicação para o tempo que lá se estica, se expande e se avoluma. Ao contemplar certa vez a multidão de chineses que, num parque, como em todas as manhãs, começavam o dia com os movimentos lentos e ritualísticos do tai chi, veio-me a revelação, como um raio: a China tem parte com a eternidade. Ela é a mais antiga civilização ainda em atividade. Viu muitas outras nascer e morrer. Tem uma experiência sem igual no planeta Terra.
Ao responder ao telefonema do novo embaixador chinês, eu me dei conta de que... sim, era o Chen. Meu antigo intérprete e amigo chegou ao topo da carreira. Não sei que China é essa que ele veio representar. O leitor, ao chegar a esta página, já sabe como é a China dos dias que correm, mas eu não li a revista ainda. O que sei é que, comunista ou capitalista, rica ou pobre, a China impõe-se ao mundo, soberana e imperturbável como um deus.
Lya Luft - Biografia
"Não existe isso de homem escrever com vigor e mulher escrever com fragilidade. Puta que pariu, não é assim. Isso não existe. É um erro pensar assim. Eu sou uma mulher. Faço tudo de mulher, como mulher. Mas não sou uma mulher que necessita de ajuda de um homem. Não necessito de proteção de homem nenhum. Essas mulheres frageizinhas, que fazem esse gênero, querem mesmo é explorar seus maridos. Isso entra também na questão literária. Não existe isso de homens com escrita vigorosa, enquanto as mulheres se perdem na doçura. Eu fico puta da vida com isso. Eu quero escrever com o vigor de uma mulher. Não me interessa escrever como homem."
Lya Luft nasceu no dia 15 de setembro de 1938, em Santa Cruz do Sul, Rio Grande do Sul.
Por se tratar de cidade de colonização alemã, as crianças, em quase sua totalidade, falavam alemão, e os livros utilizados nas escolas vinham da Alemanha. Com onze anos, Lya decorava poemas de Goethe e Schiller.
Posteriormente, estudou em Porto Alegre (RS), onde se formou em pedagogia e letras anglo-germânicas.
Iniciou sua vida literária nos anos 60, como tradutora de literaturas em alemão e inglês. Lya Luft já traduziu para o português mais de cem livros. Entre outros, destacam-se traduções de Virginia Wolf, Reiner Maria Rilke, Hermann Hesse, Doris Lessing, Günter Grass, Botho Strauss e Thomas Mann. Ela diz que traduzir é sua verdadeira profissão. E que faz tradução para ganhar dinheiro. Mas também porque gosta. Um trabalho que exige respeito. Seu desejo é aproximar o escritor estrangeiro do leitor brasileiro. Confessa que não pode ser inteiramente fiel, porque pode-se correr o risco de ninguém entender nada. Mas não faz um carnaval em cima do texto alheio, não inventa, não cria frases que não existem.
Conheceu Celso Pedro Luft, seu primeiro marido, quando tinha 21 anos. Ele tinha quarenta. Era irmão marista. Foi numa prova de vestibular. Achou-se ridícula quando pensou: esse é o homem da minha vida! O irmão marista tirou a batina para casar com ela em 1963.
Nessa paixão, começou a escrever poesia. Os primeiros poemas foram reunidos no livro "Canções de Limiar" (1964).
Tiveram três filhos: Suzana, em 1965; André, em 1966; e Eduardo, em 1969.
Em 1972 lança mais um livro de poemas, "Flauta Doce".
Em 1976, escreveu alguns contos e mandou para Pedro Paulo Sena Madureira, que era editor da Nova Fronteira. Pedro Paulo respondeu dizendo que os contos eram todos “publicáveis”. Pedro Paulo, no entanto, aconselhou Lya a escrever um romance, dizendo que ela era romancista. Dois anos depois ela escreveu "As Parceiras".
Em 1978 lança seu primeiro livro de contos, "Matéria do Cotidiano".
A ficção entrou em sua vida dois anos depois de um acidente automobilístico quase fatal em 1979. Como teve uma visão mais próxima da morte, diz a autora que começou a fazer tudo que evitava.
Primeiro foram crônicas, com o lançamento de "As Parceiras", em 1980, e "A Asa Esquerda do Anjo", em 1981. Textos amenos. Uma espécie de fingimento de que na vida tudo é bom. A morte é encarada como uma coisa normal. Mas gostaria que todos os seus amigos fossem eternos. Mesmo assim, acha a morte uma coisa mágica.
Em apenas oito anos Lya Luft sofreu duas perdas grandes demais. Dos 25 aos 47 anos foi casada com Celso Pedro Luft. Separou-se dele em 1985 e foi viver com o psicanalista e escritor Hélio Pellegrino, que morreu três anos depois. Em 1992 voltou a casar-se com o primeiro marido, de quem ficou viúva em 1995.
A escritora é conhecida por sua luta contra os estereótipos sociais. "Essas coisas que obrigam as pessoas a ser atletas. Hoje é quase uma imposição: a ordem é fazer sexo sem parar, o tempo todo. A ordem é não fumar, não beber. É essa loucura o dia inteiro na cabeça. Quem não for resistente acaba enlouquecendo. E a vida fica para trás. Hoje as pessoas estão sofrendo muito. Um sofrimento absolutamente desnecessário. Especialmente as mulheres que fazem plástica logo que vêem uma ruga no rosto. Plásticas de inteira inutilidade".
Lya Luft deixa claro que nada tem contra as cirurgias plásticas, mas contra o rumo disso tudo. "Na ambição de serem sempre jovens, as mulheres acabam perdendo o próprio rosto. São os falsos mitos da juventude para sempre. E isso também inclui a febre atual da mídia, particularmente nas revistas femininas. Só se fala como se pode ter vários orgasmos numa única noite. Só se fala em como a mulher deve agir para segurar seu homem pelo sexo, especialmente o oral. São fórmulas de um mundo conturbado, que foge ao afeto, distante de qualquer felicidade. Essa é outra coisa para o enlouquecimento. Em todo lugar, o que existe é a supervalorização do sexo. Quem não estiver fazendo sexo sem parar o tempo todo passa a ser anormal. Muita gente fica complexada porque não consegue vários orgasmos numa noite. É tudo uma imposição".
A autora diz ser uma constatação precária dizer que ela escreve sobre mulheres. Mulheres não são seus personagens exclusivos. “Escrevo sobre o que me assombra”, observa. E nisso está a infância. O importante é o compromisso com a dignidade. Toda a sua obra poderia ser resumida — como afirma — num livro de indagações.
Em 1982 publica "Reunião de Família", e em 1984 outros dois livros: "O Quarto Fechado" e "Mulher no Palco". "O Quarto Fechado" foi lançado nos E.U.A. sob o título "The Island of the Dead".
Quem é Lya Luft? Uma mulher gaúcha, brasileira, que faz cada vez mais, aos sessenta e um anos, o que desde os três ou quatro desejava fazer: jogar com as palavras e com personagens, criar, inventar, cismar, tramar, sondar o insondável. "Tento entender a vida, o mundo e o mistério e para isso escrevo. Não conseguirei jamais entender, mas tentar me dá uma enorme alegria. Além disso, sou uma mulher simples, em busca cada vez mais de mais simplicidade. Amo a vida, os amigos, os filhos, a arte, minha casa, o amanhecer. Sou uma amadora da vida. O que você nunca vai esquecer? Escutar o vento e a chuva nas árvores do imenso jardim que cercava a casa de meu pai, na minha infância". Puro maravilhamento. O que lhe causa repugnância? Preconceito, hipocrisia. Vale a pena escrever? "Não escrevo porque “valha a pena”, mas porque me faz feliz, simplesmente". O que falta à literatura brasileira? "Nada, não falta nada. Ela é o que é, simplesmente, cheia de graça, desgraça, florescente, múltipla, lutando com a crise econômica que atinge também as editoras, mas, como não se escreve para ficar rico, tudo bem". E Deus? "Deus eu imagino como força de vida: luminosa, positiva, imperscrutável". E o Brasil? Brasil cujo jeito é parecer não ter jeito. "Não quero jamais ter de morar longe dele. Aqui tudo é possível. E tanto está ainda por fazer". O que fazer para reverter esse quadro de miséria? "Que os responsáveis por isso criem vergonha na cara". Quem não merece respeito algum de ninguém? "Todos merecem algum respeito, no mínimo compaixão". Você costuma rezar? "Não tenho nenhuma religião instituída, mas tenho uma profunda visão “religiosa”, sagrada, da natureza, das pessoas, do outro". Qual é seu momento ideal para escrever? "O momento em que meu livro quer ser escrito. Mas normalmente produzo mais de manhã bem cedo. Gosto de ver o dia nascer, aqui na minha mesa de trabalho e do meu computador". Se confessa uma mulher tímida, embora não pareça.
Em 1987 lança "Exílio"; em 1989 o livro de poemas "O Lado Fatal" e, em 1996, o premiado "O Rio do Meio" (ensaios), considerado a melhor obra de ficção do ano.
Lya Luft afirma que hoje prefere ficar quieta consigo mesma. Já casou demais. Já enviuvou demais. Não se imagina mais vivendo ao lado de ninguém. Mas não quer desprezar os encantamentos que surgem por seu caminho. Lya afirma ter sido um privilégio ter conhecido e vivido com dois homens que muito lhe ensinaram. Sua visão do masculino é muito positiva. Foram três homens, na verdade, que a influenciaram e percorreram sua vida, erguendo seu rosto, seu percurso, abrindo seus rumos: seu pai, Arthur Germano Fett, que considerava um homem culto, amigo e também solitário; seu cúmplice, Celso Pedro Luft, de quem herdou o sobrenome; e Hélio Pellegrino. Três homens inesquecíveis. Que sempre vão permanecer nas palavras, nos pensamentos, nos acenos possíveis.
Não faz tarde de autógrafos, sente-se desconfortável com isso. Não gosta de discutir teorias literárias, especialmente quando se referem à sua obra. Nunca pensou em tradição literária ou, especialmente, em tradição literária gaúcha. Não quer fazer literatura regional. Não quer ser representante de descendentes. Não quer pertencer a grupo nenhum. Quer mesmo é ser livre. Quer ficar quieta no seu canto. No livro "Secreta Mirada", lançado em 1997, ela se deixou com ela mesma e discorreu sobre temas que nunca fala em discussões literárias, em entrevistas, depoimentos.
"Sou dos escritores que não sabem dizer coisas inteligentes sobre seus personagens, suas técnicas ou seus recursos. Naturalmente, tudo que faço hoje é fruto de minha experiência de ontem: na vida, na maneira de me vestir e me portar, no meu trabalho e na minha arte/ Não escrevo muito sobre a morte: na verdade ela é que escreve sobre nós - desde que nascemos vai elaborando o roteiro de nossa vida/ O medo de perder o que se ama faz com que avaliemos melhor muitas coisas. Assim como a doença nos leva a apreciar o que antes achávamos banal e desimportante, diante de uma dor pessoal compreendemos o valor de afetos e interesses que até então pareciam apenas naturais: nós os merecíamos, só isso. Eram parte de nós./ O amor nos tira o sono, nos tira do sério, tira o tapete debaixo dos nossos pés, faz com que nos defrontemos com medos e fraquezas aparentemente superados, mas também com insuspeitada audácia e generosidade. E como habitualmente tem um fim - que é dor - complica a vida. Por outro lado, é um maravilhoso ladrão da nossa arrogância./ Quem nos quiser amar agora terá de vir com calma, terá de vir com jeito. Somos um território mais difícil de invadir, porque levantamos muros, inseguros de nossas forças disfarçamos a fragilidade com altas torres e ares imponentes./ A maturidade me permite olhar com menos ilusões, aceitar com menos sofrimento, entender com mais tranqüilidade, querer com mais doçura./ Às vezes é preciso recolher-se".
Em 1999 a escritora lança o livro "O Ponto Cego".
“A vida é maravilhosa, mesmo quando dolorida. Eu gostaria que na correria da época atual a gente pudesse se permitir, criar, uma pequena ilha de contemplação, de autocontemplação, de onde se pudesse ver melhor todas as coisas: com mais generosidade, mais otimismo, mais respeito, mais silêncio, mais prazer. Mais senso da própria dignidade, não importando idade, dinheiro, cor, posição, crença. Não importando nada”.
Bibliografia:
No Brasil:
- Canções de Limiar, 1964- Flauta Doce, 1972- Matéria do Cotidiano, 1978- As Parceiras, 1980- A Asa Esquerda do Anjo, 1981- Reunião de Família, 1982- O Quarto Fechado, 1984- Mulher no Palco, 1984- Exílio, 1987- O Lado Fatal, 1989- O Rio do Meio, 1996- Secreta Mirada, 1997- O Ponto Cego, 1999- Histórias do Tempo, 2000- Mar de dentro, 2000(Todos os livros foram publicados pelas Edições Siciliano e Mandarim, São Paulo - SP)- Perdas e ganhos, 2003 - Editora RecordNo exterior:
- The Island of the Dead (O Quarto Fechado), E. U. A.
Os dados acima foram obtidos em livros da autora, páginas da Internet e em artigo publicado por Álvaro Alves de Faria, jornalista, poeta e escritor.
Ponto de Vista: Lya Luft - Faxina nos mitos II

"A maioria das pessoas de classe média nametade da vida poderia correr menos e vivermais. Não viver adoidado, mas assimilandoo mundo, os afetos, a arte. Celebrandoa vida com suas mutações"
Como na coluna anterior, publicada há quinze dias, aqui não falo dos verdadeiros mitos, que preexistem e que a gente não cria, mas descobre, pois fazem parte do nosso inconsciente, emergem nos sonhos, nas análises, na busca de significados. Falo dos mitos inventados por nós mesmos, pela mídia, pela cultura, pelos que pretendem governar nossas mentes. Eles têm a ver com fantasias, preconceitos e medos, com hipocrisia.
Um deles, o mito da competência, antes aflição tipicamente masculina, hoje atormenta muitas mulheres. A chamada liberação feminina foi também assunção de um monte de responsabilidades, dilemas e trapalhadas viris. Está certo que este é um mundo altamente competitivo. É verdade que todos precisamos ganhar o pão nosso com o velho suor – ou o mais moderno stress. Mas, com o passar do tempo, uma vez que depois dos 40 anos é que as coisas e as cabeças começam a ficar interessantes, o mito da competência poderia ser substituído pelo desejo de sabedoria. Ambicionar algo mais e melhor do que prestígio e dinheiro.
Temos gravado a fogo, na testa e no peito, uma cruel tatuagem: "Eu tenho de". A gente tem de estar à frente, ainda que na fila do INSS. A gente tem de ser, como escrevi tantas vezes, belo, jovem, desejado, bom de cama (e de computador, é claro). A gente tem de aproveitar o mais que puder, explorar o outro sem piedade ou bancar o forte e ajudar meio mundo, mas não deve contar com ninguém para escutar as nossas dores. Porque nem lhe daremos chance: a gente tem de ao menos parecer onipotente.
A maioria das pessoas de classe média na metade da vida poderia correr menos e viver mais. Não viver adoidado, mas assimilando o mundo, os afetos, a arte, a beleza inventada ou natural que nos rodeia. Celebrando a vida com suas mutações.
Publiquei um livro que chamei "infantil", mas realmente é uma pequena fábula para qualquer idade. Uma metáfora: histórias de uma bruxa boa não muito irreal, com as falhas, divertimentos e sustos de uma pobre mortal. De momento escrevo um Bruxas Dois, falando das transformações que nos assustam e fazem crescer. Bruxinhas vão à escola e percebem que mudar nem sempre é perder; uma criança indaga por que não tem vovô, e lhe dizem que, como na natureza, também entre os humanos as coisas se transformam, persistindo de outras maneiras. Mesmo adultos, nunca nos livraremos inteiramente dos mitos castradores. Mas podemos melhorar, em muito, a nossa perspectiva, e afrouxar nossas algemas. Porque crescemos até morrer, embora em geral se pense que nos deterioramos. Caminhamos com os medos e incertezas soprando seu bafo em nosso calcanhar, por isso somos uns heróis no cotidiano e no transcendental.
Quando esta coluna for publicada, estarei na França falando da nossa cultura, da nossa literatura, do nosso país. Apesar dos desalentos, há muita coisa boa a dizer. Em português, é claro, ou, como dizia meu amado Erico Verissimo, "falando outros idiomas com orgulho do meu bom sotaque brasileiro". Também na alma, diga-se de passagem, porque a alma tem lá suas manias, que são o sotaque do seu contexto humano e cultural, as tradições, a coragem e as fragilidades do seu povo. A alma que aqui escreve, adoçada pelo tempo, nunca achou graça na inclinação dos pernósticos e inseguros de querer ser mais europeus do que brasileiros. Não "tenho de" aparentar mais do que isto que, com muita dificuldade, afinal consigo ser.
Como na coluna anterior, publicada há quinze dias, aqui não falo dos verdadeiros mitos, que preexistem e que a gente não cria, mas descobre, pois fazem parte do nosso inconsciente, emergem nos sonhos, nas análises, na busca de significados. Falo dos mitos inventados por nós mesmos, pela mídia, pela cultura, pelos que pretendem governar nossas mentes. Eles têm a ver com fantasias, preconceitos e medos, com hipocrisia.
Um deles, o mito da competência, antes aflição tipicamente masculina, hoje atormenta muitas mulheres. A chamada liberação feminina foi também assunção de um monte de responsabilidades, dilemas e trapalhadas viris. Está certo que este é um mundo altamente competitivo. É verdade que todos precisamos ganhar o pão nosso com o velho suor – ou o mais moderno stress. Mas, com o passar do tempo, uma vez que depois dos 40 anos é que as coisas e as cabeças começam a ficar interessantes, o mito da competência poderia ser substituído pelo desejo de sabedoria. Ambicionar algo mais e melhor do que prestígio e dinheiro.
Temos gravado a fogo, na testa e no peito, uma cruel tatuagem: "Eu tenho de". A gente tem de estar à frente, ainda que na fila do INSS. A gente tem de ser, como escrevi tantas vezes, belo, jovem, desejado, bom de cama (e de computador, é claro). A gente tem de aproveitar o mais que puder, explorar o outro sem piedade ou bancar o forte e ajudar meio mundo, mas não deve contar com ninguém para escutar as nossas dores. Porque nem lhe daremos chance: a gente tem de ao menos parecer onipotente.
A maioria das pessoas de classe média na metade da vida poderia correr menos e viver mais. Não viver adoidado, mas assimilando o mundo, os afetos, a arte, a beleza inventada ou natural que nos rodeia. Celebrando a vida com suas mutações.
Publiquei um livro que chamei "infantil", mas realmente é uma pequena fábula para qualquer idade. Uma metáfora: histórias de uma bruxa boa não muito irreal, com as falhas, divertimentos e sustos de uma pobre mortal. De momento escrevo um Bruxas Dois, falando das transformações que nos assustam e fazem crescer. Bruxinhas vão à escola e percebem que mudar nem sempre é perder; uma criança indaga por que não tem vovô, e lhe dizem que, como na natureza, também entre os humanos as coisas se transformam, persistindo de outras maneiras. Mesmo adultos, nunca nos livraremos inteiramente dos mitos castradores. Mas podemos melhorar, em muito, a nossa perspectiva, e afrouxar nossas algemas. Porque crescemos até morrer, embora em geral se pense que nos deterioramos. Caminhamos com os medos e incertezas soprando seu bafo em nosso calcanhar, por isso somos uns heróis no cotidiano e no transcendental.
Quando esta coluna for publicada, estarei na França falando da nossa cultura, da nossa literatura, do nosso país. Apesar dos desalentos, há muita coisa boa a dizer. Em português, é claro, ou, como dizia meu amado Erico Verissimo, "falando outros idiomas com orgulho do meu bom sotaque brasileiro". Também na alma, diga-se de passagem, porque a alma tem lá suas manias, que são o sotaque do seu contexto humano e cultural, as tradições, a coragem e as fragilidades do seu povo. A alma que aqui escreve, adoçada pelo tempo, nunca achou graça na inclinação dos pernósticos e inseguros de querer ser mais europeus do que brasileiros. Não "tenho de" aparentar mais do que isto que, com muita dificuldade, afinal consigo ser.
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